terça-feira, 25 de março de 2008

Sobre bolinhas, cadelinhas e chuvinhas.




Ela corre pela estrada cinza que segue ate o portão, sem chegar ao seu destino. Para no meio do caminho, sentindo as gotas de chuva molhar-lhe o rosto e o cabelo curto. Sorri, sentindo cada pingo de água lavar-lhe a alma, o vestido azul de bolinhas amarelas grudar no corpo. Ela adora aquela sensação. Ela é livre. Ela é limpa. Ela é feliz. Ela está feliz.

E isso tudo é muito bom.

Sente os olhos encherem de lágrimas salgadas que nunca iriam ser derramadas. Não precisavam. Não eram lágrimas tristes, pela primeira vez, não eram. Ela sorri e dança na chuva. Dança porque se sente bem. Dança porque há muito não se sentia assim.

Ouve os latidos da cachorra. A bonequinha de luxo lhe observa da varanda, os olhos castanhos confusos a cabeça meio que pendendo para um lado. Ela late, mais uma vez, chamando-a.

Mas a menina de azul não quer sair dali, não quer sair da água. Ela quer ser limpa, cada vez mais. Ela que quase perdeu suas cores está feliz por tê-las de volta. Amarelas, vermelhas, azuis e pretas. E ela dança, sentindo a chuva dançar com ela.

Corre em direção ao portão de madeira, percorrendo o que faltava do caminho cinza, ouve mais latidos, e quando se vira não vê mais sua cachorra protegida na varando. Ela agora a segue pela chuva. Preocupada. Os olhos pedem para voltar, para se protegerem da água malvada, mas a menina não quer.
Ela quer continuar a correr, a dançar e a se molhar. Então ela abre o portão e desce a rampa, seus pés descalços encontrando a água, a lama e o asfalto. A cadela lhe segue, temerosa, chorosa, latindo. Ela não quer ficar na chuva, mas também não quer deixar a dona. E apesar do medo e por não gostar da água, lhe segue, sempre companheira.

A menina nota então que é observada, não pela cachorra, mas pela garota da janela de sorriso colorido. Ela acena, divertindo-se com a cena. Trocam rápidas palavras, divertidas, brincalhonas. A menina na chuva, a garota na janela. A cachorra late aos seus pés, implorando para voltar.

As duas se despedem e a menina atende ao pedido da filhote, voltando para casa. Mas ela ainda não quer deixar a chuva, então fica parada em frente à varanda. A cachorra lhe olhando, já protegida, sem entender.

E a menina fica lá, sentindo a água da chuva lhe tocar o rosto, seu vestido azul com bolinhas amarelas grudarem no corpo. E percebe que não é mais uma simples menina.

5 comentários:

O seringueiro Voador disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
O seringueiro Voador disse...

Curioso, pergunto-me o que ela teria visto.... hehehe

enfim... achei que ia ter um final trágico.

Se eu tivesse escrito, certamente teria.

(P.S. Foi o Arison quem me indicou esse blog, deveras interessante devo ressaltar, exclui o primeiro comentário pra postar esse p.s. achei que desapareceria, mas fica lá o fulano de tal excluiu, aff, se soubesse teria simplesmente postado de novo, enfim, Blog legal)
Near.

Anne Nascimento disse...

Na verdade, eu percebo que ela já não é mais uma menina desde o início.

tá lindo!

Fred Viana disse...

Consegui visualizar um curta de animação em minha cabeça, com cenas rápidas demais e lentas demais em alguns momentos...
Tudo em preto-e-branco com apenas seu vestido azul de bolinhas amarelas sendo colorido.
Muito emocionamente, daria um excelente filminho!
Muito lindo!

Suellen Verçosa disse...

E a cada dia essa menina de vestido de bolinhas surpreende mais!

Porque as palavras estão mais sólidas,
o andar mais firme,
dela que
em tempos de chuva pode desfrutar
de impregnar-se de toda a sensação dos pingos que lhe escapam pelo corpo!