domingo, 28 de junho de 2009

Histórias que devem ser lembradas

Essa é uma das minhas histórias preferidas e ouço desde que me lembro de começar a perguntar sobre jornalismo ao meu pai. Dessa história tenho 3 versões diferentes: Meu pai, Marcos Afonso e Élson Martins. Relembrei dessa história essa semana, em uma conversa com Marcos Afonso para um trabalho da faculdade. Compartilho.

O ano não sei ao certo, provavelmente era lá pela década de 80. Tudo se passou nas salas do Jornal O Rio Branco, em sua época de ouro. Um dia o jornalista Antonio Alves (que por coincidência trata-se do meu pai) decidiu escrever em sua coluna “O espirito da coisa” sobre a arte de destruir a floresta para “plantar boi” como ele mesmo dizia, sendo veemente contra e chamando aqueles que a praticavam de psicopatas. O texto foi publicado. Narciso, o recém-dono do jornal muito conhecido por essas bandas, não gostou muito. O motivo? Sua familia fazia isso. Então demitiu meu pai.

Segundo Marcos Afonso, naquele mesmo dia o editor do jornal, o reconhecido e saudoso José Leite, entrou na sala da redação do jornal, não falou com ninguém (o que não lhe era de praxe, já que sempre fora um grande gozador) e começou a guardar suas coisas em uma caixa. Todos ficaram assustados, ate que alguem perguntou: - Zé, o que você está fazendo?

Ele prontamente respondeu que estava se demitindo, e disse que não poderia continuar trabalhando em um local que fazia aquele tipo de coisa com um companheiro de trabalho. Que inibia e não permitia que as pessoas tivessem opiniões contrarias. E num ato de solidariedade humana, de idéias, conceitos e ideologias, se demitiu.

Para quem não sabe muito sobre Zé Leite, pode pensar que isso não era nada. Muito engano. Ele amava aquele jornal. Tenho uma edição da revista N’Ativa com uma entrevista com ele, em que o Zé afirma que O Rio Branco era uma extensão de sua casa e afirma:

“Considerei a demissão uma afronta, um cerceamento a liberdade de expressão. Ai decidi sair. Se foi em solidariedade ao Antonio Alves? Foi, mas como eu disse para o pai dele, o Vieira, quando ele veio me abraçar e dizer que poucos fariam isso: ‘qualquer um faria isso, porque vi no presente do Toinho eu vi meu futuro”.

Para Zé, o fim de sua era que durou 19 anos dentro do Jornal O Rio Branco doeu, doeu muito. Mais passou, e ele não se arrependeu da decisão. Quando Zé Leite se demitiu, todo o jornal o seguiu. O Rio Branco ficou quase um mês sem rodar suas maquinas e só voltou quando jornalistas de fora foram chamados. Alguns ainda voltaram para o jornal. Zé Leite não. E O Rio Branco nunca mais teve a força daqueles tempos.

Esse acontecimento foi um marco no jornalismo. Naquela época, um ato deste, de abandonar algo que se ama por não concordar com as ações das pessoas que estão lá, era considerado solidariedade ao próximo, uma luta. As pessoas eram admiradas pela coragem. Hoje um ato semelhante, é visto como burrice e as pessoas que o fazem são ditas como vai-com-as-outras, oposição, acéfalas e sem opinião. Antes existiam ideologias, hoje existem fofocas e mensagens veladas em twitter. Depois me perguntam por que eu preferia aquela época...

3 comentários:

Janu Schwab disse...

Que lindo! Que 'outros tempos' especial! Me chamem de encrenqueiro, babaca ou, como preferem os baba-ovo de plantão, de esquizofrênico: mas duvido quem tem a coragem de fazer isso de peito aberto hoje em dia! Ficamos só com a lembrança tenra e doce de um tempo que, snif!, não se repete! É a utopia da 'catigoria'! Brigam pelo diploma, mas não pela profissão - como se o primeiro fosse a garantia do segundo! Fuééééé! Perdeu preiboi! Como diz o meu rude amigo imaginário: o mundo é dos pélasaco!

Erika disse...

Oi. tenho lido seu blog nos ultimos dias. E estou gostando bastante!

Claudinha Bártholo disse...

Muito boa a historia.
adorei...
um abracao.